Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
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UMA VIAGEM NO TEMPO: DA POEIRA DO PASSADO AO TURBILHÃO DO PRESENTE

Esta moderna, turbulenta e portentosa capital, vítima das conseqüências de um crescimento desordenado e das graves distorções sócio-econômicas comuns a todas as grandes cidades brasileiras, quem diria, há somente 100 anos era apenas um arraial poeirento, quieto, silencioso e triste. Previamente escolhido para acolher suas primeiras construções e moradores, aquele local quase deserto e cheio de colinas cercado por um esplêndido maciço de montanhas azuladas, de clima seco e geralmente frio, logo começou a receber os primeiros grupos de funcionários públicos, desconfiadíssimos e receosos de que a transferência de Ouro Preto para um ermo perdido no mapa não passasse de louca aventura.

Assim, dispensando as sangrentas epopéias que deram início à saga de tantas outras capitais brasileiras, a antiga fazendinha de Curral D’El Rey foi transformada em vila por força de decreto e, no lugar de generais e suas tropas belicosas, foram convocadas as primeiras equipes de pacíficos arquitetos, engenheiros e urbanistas. E os canhões, bacamartes e outras armas, que antes erguiam cidades, deram vez às pranchetas, réguas e compassos que traçaram os formatos iniciais do povoado pacato, tranqüilo e acanhado.

Livre da carga pesada do heroísmo das conquistas e do doloroso martírio de escravos ou do extermínio de índios, o que rolava então por aqui era a desconfiança, o desconforto e a incerteza daqueles espantados amanuenses arrancados de suas sólidas raízes ouropretanas que se juntavam às levas de outros novos moradores, oriundos dos mais longínquos grotões mineiros, carregando seus costumes provincianos para a modorra de um lugar desconhecido, de céu luminoso, de terra vermelha e infestado de terríveis escorpiões.


Concebida para abrigar cerca de 200 mil habitantes num futuro então remotíssimo, a cidade mantinha-se confortavelmente dentro dos vastos limites da avenida do Contorno. Nos primeiros bairros erguidos pelo Plano Diretor da nova capital, a singeleza das casas modestas, avarandadas e chapadas com pó-de-pedra misturadas com lâminas de mica que brilhavam à luz da lua contrastavam com a sofisticação e o rebuscamento neoclássico dos vetustos prédios públicos. A Praça da Liberdade era orgulhosamente mostrada aos visitantes como a jóia mais preciosa da cidade, que tinha também um fabuloso Parque Municipal encravado em sua região mais nobre e que era pelo menos duas vezes maior e mais exuberante que o atual. Os raros endinheirados da terra moravam em chácaras suntuosas além dos limites da Contorno, e cortando todo o arborizadíssimo perímetro urbano, grandes córregos alimentados por incontáveis e minúsculos afluentes desaguavam imaculados nas águas claras, puras e cheias de peixes do ribeirão Arrudas. Os poucos moradores da cidade que surgia eram tementes a Deus, às autoridades constituídas, aos austeros chefes de seção, às trovoadas de dezembro, às assombrações do Bonfim e do Acaba Mundo, sem falar dos perigos do vento nas costas e da mistura de leite com manga, fruta farta em todos os pomares. Havia um sem-número de jardins exalando o perfume adocicado e amorável das damas-da-noite, e os bondes cortavam as ruas mortas e mal iluminadas com rigoroso estrépido e pontualidade. Naquelas noites assombradas e profundas nenhum daqueles tímidos, circunspectos e conservadores cidadãos seria capaz de sonhar que um século depois - apenas uma gota no mar da história dos povos - uma fervilhante e problemática megalópole de trânsito absurdo sepultaria para sempre o florescente arraial do passado, diante do silêncio compungido das montanhas milenares e irremediavelmente dilapidadas num turbilhão incessante de crescimento e progresso.

A TRAJETÓRIA DE UM PROGRESSO


Já em seu projeto arquitetônico, a nova capital expunha claramente a extratificação social da época. O funcionalismo público localizava-se em torno da máquina administrativa (ainda hoje, o poder do Palácio da Liberdade exerce grande atração sobre os mineiros) e de operários e pequenos comerciantes nas áreas suburbanas (Barro Preto, Carlos Prates, Santa Efigênia e Floresta), ficando os abastados chacareiros na região periférica. Belo Horizonte passou a ocupar o centro de um estado com as dimensões da Alemanha. O ato da transferência da capital de Ouro Preto para um planalto no vale do Rio das Velhas veio carregado de simbologia do fim de século, da monarquia em seus estertores, e do café superando a atividade aurífera no campo econômico. O sopro reformista da República (1889) começava a balançar o espírito monarquista e o ranço retrógrado que imperavam na antiga Vila Rica.

Portanto, Belo Horizonte nasceu sob os auspícios de uma nova era. Um princípio de ruptura com o passado, forjando um cenário de modernidade, que se confrontava com o conservadorismo de seus primeiros moradores. Chamada de Cidade de Minas em seus primeiros cinco anos, foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897, com uma salva de 21 explosões de dinamite. A nova capital empurrou seus simplórios habitantes para os braços do cosmopolitismo, e em menos de um século estourou também em densidade demográfica: hoje, esta megalópole comporta uma população de 2 milhões de habitantes, quase dobrando no seu entorno, que engloba 40 outros municípios.

A capital mineira cresceu vocacionada para o setor de serviços. É sua marca registrada, indelével. Passada a Primeira Guerra mundial, ela ganhou novo impulso econômico em todos os setores. A implantação de indústrias de bens de consumo e siderurgias trouxe reflexos imediatos e positivos no crescimento do centro comercial. Seus habitantes começaram a desfrutar de uma efervescente vida cultural, com encenações teatrais, concertos, conferências, cinema e exposições de artes plásticas, e a cidade abriu os seus braços para as colônias de italianos, sírios, judeus e libaneses que chegavam, também operosos artífices neste surto desenvolvimento.

Belo Horizonte iniciou o seu processo de verticalização arquitetônica na década de 30. No lirismo da noite fundiram-se concreto e poesia. Ainda hoje prevalece por aqui a concepção de que progresso é sinônimo de arranha-céus e asfalto, com a construção desordenada de edifícios, fruto da desenfreada e perversa especulação imobiliária. A massa asfáltica compactou o calçamento em pedra, conhecido por “pé-de-moleque”, que além de removível e menos poluente, era característico desta cidade, que viu o desvario de seus administradores mutilar a grandiosidade e o esplendor do Parque Municipal. Neste período, Belo Horizonte começa a conviver de forma mais acintosa com as suas contradições sócio-econômicas. O crescimento descontrolado da cidade gerou o surgimento das primeiras favelas nas periferias, com todos os graves problemas resultantes de um inchaço que se agravou com o passar dos anos.

Foi o filho de uma humilde professora de Diamantina, Juscelino Kubitschek, quem deu uma dimensão internacional à cidade, com a criação do mais arrojado e espetacular projeto arquitetônico jamais concebido então no país: o complexo da Pampulha. Prefeito, JK convidou seu amigo, o desconhecido Oscar Niemeyer para projetar um bairro de elite na cidade, com um lago artificial, um cassino ( atual Museu de Arte Moderna ), um clube ( Iate Tênis Clube ), um restaurante ( Casa do Baile ), a igreja de São Francisco de Assis ( com pinturas de Portinari, jardins de Burle Marx, esculturas de Ceschiatti ), imediatamente considerada sacrílega pelo arcebispo metropolitano e devidamente excomungada sob piedoso escândalo. Ao conjugar arte e arquitetura em sua obra-prima, Niemeyer tornou-se referência na arquitetura moderna neste fim de milênio e os belo-horizontinos ganharam o seu mais precioso cartão postal.

DA SOBRECASACA AOS NOVOS COSTUMES


O surgimento desta mentalidade renovadora começa a despir lentamente a velha sobrecasaca do conservadorismo arcaico ainda imperante na jovem capital mineira: inicia-se uma irrefreável revolução naqueles costumes bolorentos, liberando aos poucos a sociedade de seus inúmeros tabus e barreiras comportamentais. A gente sossegada e tímida de Belo Horizonte, colocada frente a frente com as novas opções de modernidade e cosmopolitismo que lhe eram oferecidas, aprendia a conviver de forma menos formal, mais descontraída, esportiva e saudável, num vigoroso solavanco que abriu espaço para as manifestações de sua juventude.

Revelando uma surpreendente aptidão boêmia, a fechada sociedade local lentamente passou a cultuar novos hábitos, e proliferaram os cafés, bares e restaurantes e outros estabelecimentos menos nobres e nem por isso veladamente menos freqüentados. A vida era esta: subir Bahia e descer Floresta. Nomes da importância de Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Pedro Nava , Abgar Renault, Milton Campos, Gustavo Capanema e, um pouco mais adiante, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, João Etienne Filho, Murilo Rubião e Henriqueta Lisboa e tantos outros construíram um fabuloso patrimônio que projetou Belo Horizonte como pólo de fervilhante produção artistíca, literária, política e jurídica. No espaço democrático dos bares (verdadeira instituição local, uma espécie de extensão do espaço doméstico, em que pese o sagrado resguardo familiar dos mineiros), a inquietação criativa dessas sucessivas gerações de grandes talentos belo-horizontinos abriu as fronteiras do mundo para essa gente lastreada no que restou da Serra do Curral. Essa gente que viu sua capital perder o título de “Cidade Jardim” no dia em que as motoserras de um prefeito insano abateram torpemente as magníficas, frondosas e inesquecíveis alamedas de fícus que enchiam de beleza, sombras e cantos de pássaros a principal avenida da cidade, a Afonso Pena.

Hoje, na virada do milênio, a monumental metrópole gerada pela velocidade da máquina e pela audácia industrial dos tempos cibernéticos quase nada guardou da vilazinha abençoada por Nossa Senhora da Boa Viagem. Mas o chão que há 100 anos acolheu aquela gente assustada diante de uma temerária utopia continua vivo e empoeirado em remotas lembranças, como no verso de Paulo Mendes Campos, extraordinário poeta nascido no velho e bucólico bairro dos Funcionários: “Assim vou por Belo Horizonte: mancando. Uma perna bate com dureza no piso presente; a outra procura um apoio nas pedras antigas.”

ÂNGELO PRAZERES
MÁRCIO FAGUNDES